sábado, 15 de agosto de 2015
Uma carta de amor e estranhamento a Essepê.
Pego o metrô da linha azul sentido Tucuruvi em direção a Zona Norte. Vou para Santana trabalhar. Sobre os trilhos na superfície, observo teu concreto com olhos de quem ama o mar e penso que Caetano tava certo, que mau gosto. Tu és feia, São Paulo! Mas por mais incrível que isso pareça, há em ti muito de humanidade. Te vejo gente, te vejo verdadeira, queres ser prática e objetiva, mas és tão complexa que nem mesmo te entendes. Não te vejo caótica como dizem por aí, te vejo plural. E ser plural, São Paulo, ser plural é massa, como dizemos lá de onde eu venho. Te olho atenta e encantada todos os dias, és mesmo um oceano cinza. Teus prédios, narcisistas que são, refletem uns aos outros te tornando infinita. De alguma forma, tua energia me comove. Tu tocas intimamente em meus afetos, desperta desejos, me fazes te querer intensamente. Aliás, por aqui tudo é intenso, não levas a vida na bossa. Talvez seja isso, tu és uma cidade de lutas e eu costumo criar admiração por quem toma partido do próprio destino. Sou dura como ti. Me reconhecer na tua dureza não tem sido fácil. O sangue nordestino que corre em mim se vê nessa imensa massa de trabalhadores que se abriga em ti. Tantos são os refugiados que tu recebes. Sou só mais uma. Aliás, ser só mais uma tem sido a melhor das sensações que tu me proporcionas.
Me espanto com teu tamanho todos os dias. Boa pernambucana que sou, tenho mania de grandeza e acho incrível como sempre ando, ando, ando e tu nunca chegas ao fim. Tenho uma certa agonia dessa falta de horizonte, dessa falta de azul... mas tenho tentado me apegar mais ao colorido infinito de teus muros grafitados, das roupas sem vergonha de quem circula por tuas ruas e dos luminosos a anunciar esse teu espírito comercial. Que pessoas maravilhosas fazem de ti moradia, São Paulo. Te agradeço imensamente por, direta ou indiretamente, teres formado essa gente tão incrível. Obrigada por todos esses encontros tão especiais. Como já te disse, és muito humana. Meu coração derrete todos os dias com os casais anônimos no metrô que se beijam descaradamente ou com os amigos que venho fazendo aqui. Eu, que sempre me acho deslocada do mundo e por isso conservo boas amizades com mais de vinte anos, me reconheço neles. Não tens vergonha do afeto, ao contrário, transbordas amor. Criolo tava errado, existe amor de muito em essepê.
Não aprendi a te amar aos poucos, como a gente faz com a família ou os amigos. Cheguei ressabiada, falando muito mal de ti, cheia de preconceitos e me apaixonei de cara. Dizem os românticos que assim começam os relacionamentos arrebatadores. Talvez esse blablablá de amores que se complementam enfim faça algum sentido. Tu me complementas. Sinto que ainda tenho tanto a aprender contigo, mas queria te ensinar algumas coisas também. Desacelera pra não surtar e se presenteia com mais gargalhadas, por favor! No básico é isso, de resto a gente vai conversando aos poucos.
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